gloomy sunday: a música do suicídio

Não há dúvida de que algumas músicas podem ter um grande impacto emocional sobre as pessoas. A questão é: há música que afeta alguém tão fortemente que iria influenciá-la a cometer suicídio? Algumas pessoas pensam que há. O suicídio é um tema que se encontra em várias letras de diferentes tipos de música. Heavy metal, country, folk, pop exploraram esse tema. No entanto, para a maioria das pessoas é somente o heavy metal que está associado aos temas obscuros de suicídio e morte.

Em 1985, dois dias antes do Natal, dois jovens norteamericanos, Raymond Belknap, de 18 anos, e James Vance, de 20, juntaram-se para ouvir alguns álbuns do ‘Judas Priest’, ao beberem cerveja e fumarem maconha, fizeram um pacto de suicídio. Um par de horas mais tarde, cada um deles deu um tiro na cabeça. Raymond morreu instantaneamente, enquanto James sobreviveu, mas tinha destruído a maior parte de seu rosto. Ele retornou às drogas e morreu em 1988. Antes de morrer, James afirmou que o álcool e o heavy metal levaram-no a acreditar que ‘a resposta para a vida era a morte’. Ele disse acreditar que ‘Judas Priest’ assassinou seu amigo Ray. Os familiares dos dois então acusaram a banda de tê-los conduzido ao suicídio e decidiram processá-la em 1990 alegando que tinham incorporado mensagens subliminares em várias de suas gravações, inclusive em seu álbum ‘Stained Class’ de 1978. As gravações, supostamente, quando tocadas de trás para frente, contêm as frases ‘do it’, ‘I took my life’ e ‘fuck the lord’, entre outras coisas. A acusação era de que estas mensagens incitaram os seus filhos a cometerem suicídio. O caso foi indeferido após a evidência de que os meninos tiveram uma educação violenta e apresentavam indícios de depressão. O advogado que representava ‘Judas Priest’ descreveu suas vidas como ‘triste e miserável’.

    


Ozzy Osbourne também foi acusado pelo mesmo motivo, de incitar as pessoas a tirarem as suas próprias vidas. Ozzy disse em uma entrevista que foi acusado e processado em 25 casos de suicídio. Em todas as circunstâncias, a música ‘Suicide Solution’, é que foi responsabilizada. Na verdade, em vez de defender o suicídio, a música é uma declaração contra o abuso de álcool. A ‘solução’ não significa uma resposta para um problema, mas sim, a mistura de uma bebida alcoólica. Em 1984, Ozzy Osbourne foi acusado pela morte de John McCollum, de 19 anos, que se suicidou ao ouvir o álbum ‘Blizzard of Ozz’, que contém a música ‘Suicide Solution’. Seus pais entraram com uma ação, afirmando que existem mensagens escondidas na música que exortam as pessoas a cometer suicídio, apesar do fato de que seu filho sofria de depressão e consumia drogas e álcool. O advogado da família afirmou que havia na música os chamados ‘hemi-sync’ (sincronização hemisférica) que é uma marca comercial de um processo desenvolvido pelo Instituto Monroe, que faz a sincronização das ondas elétricas cerebrais dos dois hemisférios, através do áudio de um CD, o que faria com que uma pessoa fosse incapaz de resistir ao que estava sendo dito na música. O caso também foi indeferido quando se decidiu que o seu suicídio não foi devido à música. Ozzy foi novamente processado, pelo mesmo motivo, em 1991, pelos pais de Michael Waller que alegaram que foram as mensagens subliminares contidas na canção que influenciaram suas ações.

Os pais dos que se mataram não são as únicas pessoas que acreditam que Ozzy foi o responsável por suas mortes. Muitos líderes religiosos e conservadores também o culpam. O fanático religioso, David J. Stewart, que está por trás do site ‘jesus-is-savior.com’, afirmou que ‘a música de Ozzy entrega uma arma carregada para as pessoas se suicidarem. A música em si é um meio através do qual os demônios entram em suas mentes e alma’. Mais recentemente, em 2008, o ‘My Chemical Romance’ se tornou a mais recente banda acusada de incentivar o suicídio através de sua música, quando Hannah Bond, de 13 anos de idade, que viveu na Inglaterra, enforcou-se. Hannah era supostamente obcecada pela música da banda, e já tinha comentado com seus amigos sobre o glamour do suicídio, o que foi suficiente para as pessoas concluírem que a música do ‘My Chemical Romance’ foi o motivo que tirou a sua vida.

    

Embora a controvérsia gire em torno, principalmente, do heavy metal ou rock’n’roll, a música country também foi acusada de incentivar o suicídio. Há alegações de que os temas encontrados em várias músicas country promovem um estado de espírito suicida entre aquelas pessoas que já estão deprimidas e em risco de suicídio devido à crises conjugais, problemas financeiros e abuso de álcool e drogas. Um estudo sobre ‘The Effects of Country Music on Suicide’, de Steven Stack da Wayne University, e Jim Gundlach da Auburn University, mostrou alguns resultados surpreendentes: os resultados de uma análise de 49 áreas metropolitanas mostram que quanto maior o tempo dedicado à música country, maior a taxa de suicídio. O efeito é independente do divórcio, do grau de pobreza e a disponibilidade de alguma arma. Então por que apenas o heavy metal e o rock’n'roll são acusados pelos pais pelo suicídio de seus filhos? Apesar do resultado desses estudos feitos sobre os efeitos da música country, provavelmente nunca se ouvirá de um pai a queixa de que seu filho foi influenciado a se matar por ouvir a cantora e compositora Dolly Parton, eventualmente reconhecida como a ‘rainha da música country’. Ninguém fará acusações de que a música do cantor e compositor country Garth Brooks é satânica, ou que ele é o anti-cristo, apesar de sua canção ‘The Night Will Only Know’, ser sobre uma mulher que comete suicídio.

Se a música em si não causa o suicídio, o que dizer quando acontece com a pessoa que cria a música? Foi o que aconteceu no caso do ícone grunge Kurt Cobain. Em abril de 1994, o mundo da música ficou chocado quando ele foi encontrado morto. Vocalista da banda amplamente bem-sucedida ‘Nirvana’, Kurt Cobain foi usuário pesado de heroína e lutou contra a depressão. A música do 'Nirvana' pode ser descrita como sombria e depressiva, e Cobain até escreveu a canção ‘I Hate Myself and I Want to Die’. O que foi ainda mais chocante depois foi a onda generalizada de suicídios ao redor do mundo por seus fãs. Nos dias seguintes a sua morte, não só houve um aumento nos relatos de suicídio, como também houve um aumento significativo de chamadas para linhas diretas de suicídio. É fácil especular que as pessoas que tiraram suas próprias vidas provavelmente já eram suicidas, e que a morte de Cobain apenas as empurrou para o precipício.

E tais suicídios apenas fortalecem a crença de que a música pode ter um impacto emocional negativo sobre seus ouvintes, ao ponto de influenciá-los a querer morrer. O óbvio, é que alguém que já está deprimido e lutando contra pensamentos de suicídio pode ser atraído para um tipo de música de um tom mais sombrio. Caso contrário, todos que ouvissem a mesma música se matariam. Desde que isso não está acontecendo, a idéia de alguém que está deprimido busca relação com a música mais triste faz muito mais sentido. A verdade é que todos nós procuramos músicas que refletem nossos humores, emoções e sentimentos. Quando alguém está apaixonado pode passar a noite toda ouvindo canções sentimentais de amor, ou se está passando por uma má fase em algum relacionamento e estão tristes, ou se estão irritados com isso, ouvem canções amargas sobre amor perdido. A música é uma parte importante na vida de muitas pessoas, e está em nossas memórias e refletem experiências de vida. Infelizmente, os pais que processaram as bandas simplesmente não quiseram assumir qualquer responsabilidade pessoal para a depressão óbvia e o desespero de seus filhos que viram a morte como a única saída. Não querem reconhecer que eles poderiam de alguma forma, terem contribuído para o estado depressivo de seus próprios filhos. É muito mais fácil encontrar um bode expiatório, do que enfrentar a realidade.

‘Gloomy Sunday’, ‘Szomorú Vasárnap’ no original, é uma canção composta em 1933 pelo pianista e compositor húngaro Rezső Seress. A letra original de Seress, carregada de amargo desespero foi substituída pelos versos tristes e melancólicos do poeta László Jávor em que lamenta a morte prematura de uma amante e contempla o suicídio. Em 1936, finalmente, a canção chega aos Estados Unidos com o nome ‘Gloomy Sunday’, e devido a infundadas lendas urbanas sobre ser inspiradora de centenas de suicídios, foi apelidada de ‘a música húngara do suicídio’.

Rezső Seress, o compositor, realmente cometeu suicídio. Em 1968, ele pulou para a morte de seu apartamento pouco depois de seu 69º aniversário. Seu obituário no New York Times mencionou a notória reputação da canção. Seress queixou-se de que o sucesso de ‘Gloomy Sunday’ na verdade aumentou a sua infelicidade, porque ele sabia que nunca mais seria capaz de escrever um segundo hit. Mas, a maioria dos outros rumores sobre a música, de ter sido banida do rádio ou ter sido a ignição para outros suicídios, são infundados, e foram usados como propagada de marketing. Possivelmente devido ao contexto da Segunda Guerra Mundial, a versão de Billie Holiday, contudo, foi banida pela BBC. A hipótese mais conhecida para Seress ter escrito esta poderosa canção foi o término de um romance. Quando ‘Szomorú Vasárnap’ se tornou um sucesso, o compositor ao procurar a ex-amante para reatar o namoro descobriu que ela havia se suicidado com veneno, deixando a seu lado um papel contendo duas palavras: szomorú vasárnap. Mais uma lenda?

Apesar de gravada por vários cantores, ‘Gloomy Sunday’ está intimamente associada à Billie Holiday, que gravou uma versão da música em 1941. Há duas versões da letra em idioma Inglês. A primeira, por Desmond Carter, foi usada em 1935 na gravação do cantor e ativista político Paul Robeson e alguns outros. A maioria tem usado a versão de Sam Lewis que ficou famosa com Billie Holiday. Por cerca de sete décadas consecutivas essa triste canção tem sido revista, regravada e reinterpretada por músicos dos mais diversos estilos e nacionalidades. Sua letra foi adaptada para o francês, sueco, chinês, japonês e até esperanto. Estima-se que existam mais de 80 versões diferentes gravadas de ‘Gloomy Sunday’. ‘Gloomy Sunday’ também marcou presença nas telas do cinema. Aparece no início de ‘Schindler’s List’ e inspirou pelo menos outros três filmes.

Situado na Hungria, durante a Segunda Guerra Mundial, e baseado no romance de Nick Barkow, o filme alemão ‘Gloomy Sunday’, título original ‘Ein Lied von Liebe und Tod’, dirigido por Rolf Schübel em 1999, e interpretado pela atriz húngara Erika Marozsan e o ator italiano Stefano Dionisi (pianista), embora gire em torno de um triângulo amoroso com consequências trágicas, narra a criação da música ‘Gloomy Sunday'.



Entre as várias gravações de 'Gloomy Sunday' de vários artistas, no jazz, além da gravação mais famosa da canção com Billie Holiday (1941), também gravaram Hal Kemp (1936), Paul Whiteman (1936), Mel Tormé (1958), Sarah Vaughan (1961), Artie Shaw & His Orchestra com a vocalista Pauline Byrne (1940) e Branford Marsalis (2004). Também foi gravada por Ray Charles em 1969. No pop, a versão de 'Gloomy Sunday' foi gravada pela cantora islandesa Björk e pela irlandesa Sinéad O'Connor.



A versão que eu mais gosto, com a banda inglesa 'Portishead' da vocalista Beth Gibbons



publicado por mara* às 11:55 | link do post | comentar