the qatsi trilogy

The Qatsi TrilogyQuando Godfrey Reggio e Philip Glass lançaram em 1982 o filme sobre a tecnologia e a silenciosa mutação da paisagem, eles mal sabiam que ‘Koyaanisqatsi’ e suas duas sequências, ‘Powaqqatsi’ e ‘Naqoyqatsi’ se tornariam um marco cultural. Os títulos dos filmes são palavras da língua hopi, onde a palavra ‘qatsi’ significa vida. A língua Hopi pertence ao grupo Uto-Azteca e é falada pelos Hopis, uma nação indígena dos EUA que vive no noroeste do Estado de Arizona. ‘The Qatsi Trilogy’ é o nome informal dado aos filmes dirigidos por Godfrey Reggio, com trilha sonora de Philip Glass e Francis Ford Coppola na produção executiva. Todos os filmes consistem em imagens da natureza e imagens do Homem e as suas criações, tudo estimulado pela música minimalista de Philip Glass. Os filmes estruturam-se num tripé: o encadeamento conceitual, a forte carga das imagens e o rítmo musical. É difícil julgar cada um dos filmes, pois não são filmes no sentido convencional. É uma experiência de sons e imagens, harmonizados para evocar sentimentos. O papel deles é provocar, levantar questões. O primeiro aborda principalmente o hemisfério norte, o segundo o sul e países asiáticos, e o terceiro aborda o planeta como um todo. Godfrey Reggio é muitas vezes capaz de encontrar a poesia mesmo na mais perturbadora das imagens, reforçadas pela assombrosa música de Philip Glass.

Godfrey Reggio and Philip Glass Nascido e criado em Nova Orleans, Louisiana, Godfrey Reggio é um diretor de cinema especializado em documentários experimentais onde cria imagens poéticas com impacto emocional. Na trilogia Qatsi ele criou imagens que mostram a destruição do meio-ambiente pelo mundo moderno. Nos anos sessenta, no Novo México, foi professor e fundou várias organizações humanitárias e esteve envolvido em muitas causas políticas progressistas nos Estados Unidos. Reggio passou quatorze anos em jejum, silêncio e oração, dentro da ‘Congregation of Christian Brothers’, uma ordem católica, antes de abandonar o caminho da religião e para fazer filmes. Filmes sem atores, sem diálogos. E estreou como diretor de cinema e produtor com o filme ‘Koyaanisqatsi', musicado pelo seu amigo Philip Glass.

Philip Glass é um compositor norteamericano, nascido em Baltimore, e é um dos compositores mais influentes do final do século XX. Sua música é conceituada de minimalista, embora ele não aprecie esta expressão. O termo minimalismo foi usado para se referir à produção musical que reúne as seguintes características: repetição de pequenos trechos através de grandes períodos de tempo e ritmos quase hipnóticos. É frequentemente associada e inseparável da música eletrônica, da música psicodélica ou até mesmo do punk rock. Philip Glass produziu óperas, sinfonias, concertos e trilhas sonoras. É defensor da causa tibetiana. 'Satyagraha' é uma ópera baseada na vida de Mahatma Gandhi que inclui diversos mantras. A trilha sonora de 'Koyaanisqatsi' está entre as mais influentes. Além de trabalhos sinfônicos, Glass também possui fortes ligações com o rock e a música eletrônica. Vários artistas foram influenciados por sua obra e entre as influências que recebeu está a música de Ravi Shankar que mudou a sua percepção da música indiana.

yo-yo ma - primacy of number


‘Koyaanisqatsi: Life out of balance’ ‘Koyaanisqatsi: Life out of balance’ foi lançado em 1983. É o primeiro e o mais conhecido da trilogia. É uma visão apocalíptica da colisão entre dois mundos distintos: a vida urbana e tecnológica versus meio ambiente. São apresentadas cenas de paisagens naturais e urbanas, muitas delas com a velocidade modificada. Algumas cenas são lentas e outras mais rápidas que o normal, como o cotidiano da vida moderna cada vez mais rápido devido às inovações tecnológicas. Imagens do tempo com majestosa música minimalista. O título tem origem na língua Hopi e significa ‘vida em desequilíbrio’. O significado é revelado no final do documentário quando também são cantadas três profecias do povo Hopi em sua própria língua, traduzidas, é claro. Foi um filme sem história, sem diálogo e sem estrutura narrativa de qualquer tipo. Houve pouco debate sobre a importância de ‘Koyaanisqatsi’ como advertência para a humanidade. Em vez disso, encontrou-se apenas o culto à beleza das imagens em alta velocidade que se tornaram clichês usados em outros filmes e programas de televisão. Alguns o vêem como um filme fortemente pró-ambiental, enquanto outros dizem que é mais espiritual. Outros deduzem que exalta a beleza e a força das coisas que o Homem fez com a natureza. Para mim, é a prova dolorosa de como os maiores sucessos da humanidade nos levaram a grandes falhas também, e talvez no final, teremos criado algo totalmente contrário à vida que a Terra originalmente nos deu. Aos quarenta minutos do filme, como curiosidade para nós brasileiros de São Paulo, é mostrado a implosão do Edifício Mendes Caldeira, que deu lugar à Estação Sé, do Metrô de São Paulo.

koyaanisqatsi (1982)

Koyaanisqatsi: Life out of Balance (1982)
parte I    parte II


Tracklist: 01. Koyaanisqatsi 02. Organic 03. Cloudscape 04. Resource 05. Vessels 06. Pruit Igoe 07. The Grid 08. Prophecies

‘Powaqqatsi: Life in transformation’ ‘Powaqqatsi: Life in transformation’ foi lançado em 1988 e como nos demais filmes, não existem narrativas ou diálogos. Também no final é revelado o significado do nome powaqqatsi: vida em transformação. Recorrendo à desaceleração das imagens, ‘Powaqqatsi’ denuncia a violência contra a natureza. Ele segue um conceito totalmente diferente de ‘Koyaanisqatsi’, que se concentra nas estruturas inanimadas construídas pela humanidade. Este é um filme sobre pessoas e estilos de vida do mundo em desenvolvimento. Godfrey Reggio optou por não utilizar técnicas visuais e fotografia de alta velocidade e se contentou em uma abordagem mais discreta. Embora o filme não consiga se igualar ao impacto das imagens de ‘Koyaanisqatsi’, considerado o melhor pela opinião do público e dos críticos, ‘Powaqqatsi’ tem maior profundidade temática, ele faz o público e os críticos pensarem. O filme é o melhor retrato cinematográfico dos efeitos da modernidade sobre os nativos do terceiro mundo, culturas emergentes da Ásia, Índia, África, Oriente Médio e América do Sul, em parte rodado no Brasil, que ainda vivem da mesma maneira que faziam centenas de anos atrás e como eles se expressam através do trabalho e tradições. As cenas de pessoas trabalhando, carregando cestas em suas cabeças, mostram o enorme esforço exigido para esses povos realizarem uma revolução industrial e em um período muito curto de tempo. As imagens mostram o imenso trabalho e do sacrifício necessário para construir uma sociedade moderna. A estrutura do filme é a mesma que a de ‘Koyaanisqatsi’: a vida primitiva, a vida industrial, e, finalmente a existência moderna. ‘Powaqqatsi’ transmite uma filosofia humanista sobre a Terra. O avanço da tecnologia sobre a natureza e as culturas antigas, e do esplendor como resultado. O filme centra-se no modo de vida moderno e do conceito de Aldeia Global. ‘Koyaanisqatsi’ trata do desequilíbrio entre a natureza e a sociedade moderna, ‘Powaqqatsi’ é uma celebração. Para Godfrey Reggio, é uma análise de como a vida está mudando numa mistura fascinante de vivências diferentes. É um registro da diversidade e da transformação. Culturas morrendo e prosperando. Com a música de Philip Glass, os instrumentos clássicos e eletrônicos fundidos com os ritmos tribais num único tema.

powaqqatsi (1988)

Powaqqatsi: Life in Transformation (1988)
parte I    parte II


Tracklist: 01. Serra Pelada 02. The Title 03. Anthem-Part 1 04. That Place 05. Anthem-Part 2 06. Mosque And Temple 07. Anthem-Part 3 08. Train To Sao Paulo 09. Video Dream 10. New Cities In Ancient Lands, China 11. New Cities In Ancient Lands, Africa 12. New Cities In Ancient Lands, India 13. The Unutterable 14. Caught! 15. Mr. Suso #1 16. From Egypt 17. Mr. Suso #2 With Reflection 18. Powaqqatsi

‘Naqoyqatsi: Life as war’ ‘Naqoyqatsi: Life as war’ encerra a trilogia apocalíptica de Godfrey Reggio e Philip Glass e com trechos executados por Yo-Yo Ma, violoncelista francês de origem chinesa. Quinze anos depois, em 2002, Godfrey Reggio e Philip Glass voltam para a sociedade pós-industrial, marcada pelo progresso científico e pela globalização da informação. Dos três filmes, este é o mais pessimista. O filme começa com a pintura ‘Torre de Babel’, de Pieter Brueghel, O Velho. Torre construída pela humanidade para alcançar o céu numa época em que o mundo falava a mesma língua, com as mesmas palavras. Deus não gostou do projeto e confundiu a linguagem de todos. A torre, alegoricamente, explica a origem das muitas línguas faladas no mundo. O filme termina com um homem perdido no espaço citando ‘2001: A Space Odyssey’ de Kubrick. O filme é estruturado pelo Homem, a Terra, o espaço e a violência. Líderes políticos como Bush filho, Lincoln e Arafat marcam presença. Bin Laden surge brevemente, caminhando entre seguidores. ‘Naqoyqatsi’ mostra a grandiosidade do planeta conectado, globalizado, mergulhado na tecnologia que encurta distâncias e acelera processos de destruição devido ao seu mau uso. Ao contrário dos outros dois filmes, foram utilizados filmes e imagens manipulados digitalmente, misturadas com cenas produzidas por computação gráfica. É uma sucessão de imagens, algumas delas provenientes da natureza como nuvens e as ondas do oceano, outras do Homem como edifícios e pontes, e outras são fantasias geradas por computador. Assim, Godfrey Reggio também demonstra que a presença da tecnologia é essencial e predominante na produção de filmes. ‘Naqoyqatsi’ faz refletir sobre a nossa relação com a natureza, a influência da tecnologia em nossas vidas e as novas maneiras insalubres de se relacionar com as pessoas devido à facilidade da conectividade tecnológica. A humanidade não usa a tecnologia como uma ferramenta, mas vive a tecnologia como uma forma de vida. É uma necessidade, não podemos mais viver sem ela. No final do filme somos informados que ‘Naqoyqatsi’ é uma palavra que significa essencialmente, guerra e violência. Mas, Godfrey Reggio não inclui fotos de nuvens de cogumelo, de motins de rua, jogos de vídeo violentos. Godfrey Reggio examina um mundo em que a natureza tem sido largamente eclipsada pela informática. Um mundo caótico, que muitas vezes não têm tempo para parar e olhar realmente para todas as coisas belas que passam despercebidas. ‘Naqoyqatsi’ é o embate entre a natureza e a tecnologia. ‘Naqoyqatsi’ nos leva em uma jornada épica onde o real dá lugar ao virtual numa surpreendente maré digital de imagem e música.

naqoyqatsi (2002)

Naqoyqatsi: Life as War (2002)
(participação de Yo-Yo Ma)
parte I    parte II


Tracklist: 01. Naqoyqatsi 02. Primacy of Number 03. Mass Man 04. New World 05. Religion 06. Media Weather 07. Old World 08. Intensive Time 09. Point Blank 10. Vivid Unknown 11. Definition


publicado por mara* às 10:59 | link do post | comentar