ABC of the blues 41: roosevelt sykes & son house

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Roosevelt SykesRoosevelt Sykes (1906-1984) esse rechonchudo e efervescente pianista, cuja longa carreira abrangeu o período pré e pós-guerra sem interrupção alguma, desmente que o blues é demasiado deprimente. Nascido em Elmar, Arkansas, começou a tocar enquanto crescia em Helena. Com dez anos de idade tocava o órgão da igreja; depois aprendeu a tocar piano sozinho. Aos 15 anos, ele caiu na estrada, como pianista itinerante tocando música para sobreviver, e trabalhou em casas noturnas de Louisiana e Mississippi, e desenvolveu o seu estilo ‘barrelhouse’ ao redor da fértil área de St. Louis. Muitas vezes ele retornava à fazenda de seu avô em Helena e tocava órgão na igreja local. Enquanto em St. Louis apresentou-se como solista e, ocasionalmente, tocou com outros músicos como o guitarrista Big Joe Williams.

Influenciado por músicos locais, no entanto, o seu mentor mais importante foi ‘Pork Chop’ Lee Green, que lhe ensinou a versão de ‘Forty-Four Blues’ para piano. Roosevelt Sykes começou a gravar em 1929, para a ‘OKeh’ e nos anos seguintes para mais rótulos diferentes até se juntar a ‘Decca Records’, em 1935, onde sua popularidade floresceu. Durante o mesmo ano, enquanto participava de uma sessão de gravação recebeu o apelido ‘honey dripper’ de uma canção escrita pela cantora Edith Johnson. Embora houvesse especulações de que esse apelido era uma referência à sua habilidade sexual, Sykes, afirmou que Edith lhe deu o apelido em referência à sua personalidade amável e extrovertida. Considerado por músicos e historiadores como o pai do estilo moderno do blues, Roosevelt Sykes possuía uma bela voz e um estilo exclusivo que foi muitas vezes imitado por outros pianistas de blues. No início dos anos 30, mudou para Chicago e durante os anos da grande depressão, gravou para vários rótulos sob vários pseudônimos e depois tocou com o baterista e sidemen de jazz ‘Big’ Sid Catlett e com o guitarrista James ‘Kokomo’ Arnold, além de peças para piano solo. Sykes assinou contrato com a Decca Records, em 1934, e dois anos depois gravou ‘Driving Wheel Blues’, um clássico do blues.

Roosevelt Sykes era um homem genial, com uma personalidade vibrante, um artista completo. Muitas vezes ele encantou o público na Europa e nos Estados Unidos com canções de blues e ragtime cheias de humor picante. Por volta de 1940, incorporou elementos do ‘jump blues’, um blues tocado em andamento acelerado, chamado de rock and roll na década de 50. Depois de se mudar para Chicago, em 1943, assinou com a ‘Bluebird’ e foi comercializado como o sucessor de Fats Waller, que gravou no mesmo rótulo, e morreu em 1943. Enquanto em Chicago, Sykes formou seu próprio grupo, ‘The Honeydrippers’, em 1943, com doze músicos, muitos dos melhores de Chicago. Muitas vezes, viajou com o seu grupo e gravou com a cantora e pianista James Burke ‘St. Louis Jimmy’ Oden, autora do clássico ‘Going Down Slow’. Em 1954 mudou-se para New Orleans e, apesar da popularidade decrescente do blues em meados dos anos 50, continuou a tocar em pequenos clubes. Retornou brevemente para St. Louis e depois se mudou para Chicago em 1960, onde foi ‘redescoberto’ pelos entusiastas do ressurgimento da música folk.

O avivamento do folk e do blues nessa década marcou também o ressurgimento da sua carreira. Em 1961, excursionou pela Europa e apareceu no filme belga ‘Roosevelt Sykes: o Honeydripper’. Excursionou com o ‘American Folk Blues Festival’ em 1965 e 1966 e participou de vários festivais na década de 70. E continuou a participar em festivais e concertos até a sua morte de um ataque cardíaco em 1984, em Nova Orleans. A música de Roosevelt Sykes seguiu assim, eternamente alegre e atual, driblando cada capricho do mercado fonográfico e vibrante, não se importando com os modismos e alterações estilísticas durante todos os turbulentos anos entre 1929 e 1949. Roosevelt Sykes era um homem que possuía um incrível talento, assim como a habilidade de se comunicar com as pessoas.

Son House Son House (1902-1988) tem o seu lugar não só na história do blues, mas em toda a história da música. Ele foi um grande inovador do estilo do Delta do Mississippi, juntamente com seus parceiros Charley Patton e o guitarrista Willie Brown. Son House tornou-se mais do que apenas uma influência para garotos brancos ingleses, mas também a principal fonte de inspiração tanto para Muddy Waters quanto para Robert Johnson. E até o final, Son House esteve dividido entre o sagrado e o profano. Nascido como Eddie James House Jr., algumas fontes dizem Eugene, em uma plantação entre as cidades de Lyon e Clarksdale, local que tem sido utilizado para a agricultura desde o século XVIII. Nesta época, antes da Guerra Civil e da abolição da escravatura, em 1865, proprietários de plantações do delta foram grandes compradores do trabalho humano. Depois que receberam a liberdade, os escravos mantiveram a espiritualidade e as tradições musicais narradas através do blues. Ainda assim, a música que surgiu a partir destes princípios comuns não foi abraçada por todos os negros, o blues do Delta pertencia aos mais pobres e analfabetos e muitos se tornaram artistas populares. O blues foi considerado tão vergonhoso que até mesmo os seus mais fiéis devotos frequentemente achavam prudente renegá-lo. A igreja e o blues não deveriam se misturar. Este foi um dilema ético que assombrou Son House por toda a sua vida já que ele começou a carreira como pregador no Mississippi e Louisiana.

Com 15 anos pregava o evangelho em Igrejas Batista de uma plantação à outra e sem se incomodar com uma guitarra até que completou 25 anos. E embora fosse apaixonado pela religião, nunca foi comprometido com uma carreira na igreja. De emprego em emprego, colheu algodão e coletou musgo nas árvores. Embora seu pai, Eddie House, e seus tios tivessem uma banda própria, Son House nunca optou pela música como opção profissional. Em uma entrevista para a ‘Guitar Player’, ele revelou: ‘Eu era muito fanático. Bastava colocar em minhas mãos um velho violão, para considerar que isso já era pecado’. Em 1926, após um romance que o levou a Louisiana, regressou a Lyon e estava pensando em voltar para a Igreja. Nessa época, ao fazer algumas caminhadas viu um bluesman local chamado Willie Wilson tocando guitarra com um pequeno frasco de remédio e ficou deslumbrado. Com um dólar e meio comprou uma guitarra e Willie Wilson ensinou-lhe como afinar de ouvido e James McCoy deu-lhe lições de como tocar, o resto ele aprendeu sozinho. E Son House passou a pregar o blues.

Son House não era simplesmente um produto da influência de McCoy ou das gravações de blues do grande Charley Patton, o seu estilo de guitarra era influência de outro modelo, Rubin Lacy. Naqueles dias, eram tempos difíceis no Delta do Mississippi, a bebida com a posse de uma arma era uma combinação letal. Em 1928, Son House foi enviado para uma fazenda penal por atirar e matar um homem em uma festa perto de Clarksdale. Depois de cumprir dois anos na prisão, foi libertado e foi-lhe ordenado a nunca mais retornar para Clarksdale. Ele seguiu para o norte. Em Lula, no Mississippi, ele conheceu seu herói, Charley Patton, e os dois tornaram-se como irmãos. Willie Brown juntou-se para alguns shows. Em 1930, representantes da ‘Paramount Records’ convidaram Charley Patton para uma sessão de gravação. Patton trouxe Son House, Willie Brown e a sexy e ardente cantora e pianista Louise Johnson e as gravações resultantes tornaram-se clássicos, ‘My Black Mama’ e ‘Preachin’ the Blues’ obras-primas do delta. Louise Johnson teria começado a viagem como namorada de Patton e voltou ao Mississippi como a namorada de Son House. Charley Patton morreu em 1933 e Son House ganhava a vida dirigindo trator e se apresentando com Willie Brown.

Ao longo do caminho ensinou a sua clássica ‘My Black Mama’ para os titãs do blues, Robert Johnson e Muddy Waters. Em 1942, gravou ‘Walking Blues’, ‘Special Rider Blues’, ‘The Pony Blues’ e ‘The Jinx Blues’ para a Biblioteca do Congresso. Em 1943 ele deixou o Delta. Ao contrário de Muddy Waters, que abriu caminho para Chicago em busca de fama e fortuna, a motivação de Son House em deixar o Delta era escapar do tédio da vida no Mississippi. Sozinho novamente, ele tomou o trem para Rochester, Nova York. Quando Willie Brown morreu em 1952, parou de tocar, abandonou o blues e se juntou novamente à Igreja. Em 1964, foi descoberto por devotos do blues e levado a sair da aposentadoria. Assinou contrato com a ‘Columbia Records’ que fizeram ressurgir as canções com a sua assinatura. Son House se apresentou em festivais de blues e faculdades, que o levaram até a Europa. Apesar de todos os elogios, ele continuou a ser um homem de fala suave e modesto. Em 1976, a sua saúde se deteriorou e mudou-se para Detroit para estar com a família. Posteriormente foi diagnosticado com Alzheimer e Parkinson que primeiro afetou sua memória e sua capacidade de recordar canções no palco e, mais tarde, as mãos que tremiam o que o levou a parar de tocar. E viveu assim por mais 12 anos. Morreu enquanto dormia. Morreu o último dos grandes cantores originais do Delta do Mississippi.


Tracklist
01. Roosevelt Sykes - 44 Blues
02. Roosevelt Sykes - Under Eyed Woman
03. Roosevelt Sykes - Knock Me Out
04. Roosevelt Sykes - Trouble and Whiskey
05. Roosevelt Sykes - Sykes Advice Blues
06. Roosevelt Sykes - Training Camp Blues
07. Roosevelt Sykes - Sugar Babe Blues
08. Roosevelt Sykes - Jiving the Jive
09. Roosevelt Sykes - Little Sam
10. Roosevelt Sykes - The Honeydripper
11. Son House - Am I Right or Wrong
12. Son House - The Pony Blues
13. Son House - Walkin' Blues
14. Son House - Depot Blues
15. Son House - Country Farm Blues
16. Son House - The Jinx Blues
17. Son House - Levee Camp Blues
18. Son House - Special Rider Blues
19. Son House - Low Down Dirty Dog Blues
20. Son House - American Defense



son house - walkin' blues

ABC of the blues volume 41
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publicado por mara* às 09:44 | link do post | comentar